Da evidência à prática — cuidar em contextos de complexidade e mudança
Nas últimas décadas, a ventilação não invasiva (VNI) transformou-se numa ferramenta essencial no tratamento da insuficiência respiratória, sobretudo em pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e outras patologias respiratórias. Reconhecida internacionalmente pela sua segurança e eficácia, esta abordagem terapêutica tem contribuído para reduzir a mortalidade, diminuir complicações e melhorar o controlo clínico da doença.
A investigação tem mostrado que, mesmo fora do contexto hospitalar, o uso prolongado da VNI pode diminuir reinternamentos e aumentar a sobrevivência após episódios agudos (Pereira et al., 2020; Casado et al., 2022). Estes resultados reforçam a importância de integrar a VNI em percursos de cuidados centrados na pessoa, sustentáveis e baseados na evidência.
Muito mais do que uma técnica: a transição da pessoa
Apesar dos benefícios comprovados, o início da VNI representa para quem a utiliza uma mudança profunda na vida quotidiana. Passar a depender de um dispositivo ventilatório implica redefinir rotinas, aceitar novas limitações e reconstruir a autonomia.
Como defende Afaf Meleis (2010), as transições em saúde vão além do aspeto clínico: alteram identidades, papéis e relações. Por isso, o início da VNI exige um acompanhamento próximo, contínuo e humano, que apoie não apenas a adaptação física, mas também as dimensões emocional, familiar e social da pessoa.
A centralidade da enfermagem neste processo
É aqui que a enfermagem se destaca. Os enfermeiros são fundamentais na adaptação da pessoa à VNI, ensinando o uso correto do equipamento, ajustando interfaces, monitorizando resultados e ajudando a ultrapassar barreiras à adesão.
Mais do que ensinar a “usar uma máquina”, o enfermeiro cria condições para viver com ela. Através do treino, da capacitação da pessoa e do cuidador, da gestão da tolerância ao dispositivo e da construção de rotinas seguras, o enfermeiro transforma a tecnologia num instrumento de autonomia, conforto e dignidade.
Reabilitação respiratória: tecnologia com significado humano
A reabilitação respiratória surge como complemento essencial da VNI. Este processo melhora a função pulmonar, aumenta a tolerância ao esforço e reforça a autogestão da doença.
Em Portugal, vários estudos apontam que os programas de reabilitação liderados por enfermeiros especialistas em reabilitação têm um impacto direto na qualidade de vida e no autocuidado das pessoas com DPOC que utilizam VNI (Pereira et al., 2020; Casado et al., 2022). A integração entre tecnologia ventilatória e intervenção reabilitadora representa, assim, um verdadeiro salto qualitativo na forma de cuidar.
A alta e o regresso a casa: um momento decisivo
O período de transição entre o hospital e o domicílio é particularmente sensível. Muitas vezes, a alta ocorre antes de a pessoa e a família se sentirem seguras ou plenamente capacitadas. Em casa, surgem dúvidas práticas: “Estarei a colocar bem a máscara?”, “E se o equipamento falhar?”, “Como posso gerir isto sozinho?”
Neste momento, o papel do enfermeiro é determinante: prepara a alta, garante a continuidade dos cuidados e oferece apoio de proximidade, seja em consultas de seguimento, visitas domiciliárias ou através de estratégias digitais, como a telemonitorização.
Esta última tem vindo a ganhar espaço, permitindo acompanhar em tempo real os parâmetros ventilatórios e reforçar a confiança da pessoa e da família. Quando associada à telereabilitação, potencia a segurança, reduz falhas de adesão e melhora significativamente a qualidade de vida.
Cuidar na complexidade
Num contexto em que os cuidados se tornam cada vez mais complexos, integrar a VNI e a reabilitação respiratória em modelos de cuidado centrados na pessoa é essencial.
A enfermagem de reabilitação, ao articular ciência, técnica e humanidade, garante transições mais seguras, cuidados mais personalizados e resultados sustentáveis. Reconhecer esta centralidade não é apenas valorizar uma profissão — é investir na qualidade, equidade e dignidade dos cuidados em saúde.
A tecnologia pode salvar vidas, mas é o ato de cuidar que lhes dá verdadeiro significado.