Cuidados domiciliários em Portugal: quando os cuidados de saúde vão até casa

Durante muitos anos, quando se pensava em cuidados de saúde complexos, a primeira imagem era a de um hospital. Hoje, essa realidade está a mudar.

Os cuidados domiciliários estão a assumir um papel cada vez mais importante em Portugal, permitindo que muitas pessoas recebam acompanhamento de saúde no conforto da sua própria casa.

Desde a enfermagem ao domicílio aos cuidados após uma alta hospitalar, passando pelo acompanhamento de pessoas idosas, dependentes ou com doenças crónicas, existe uma crescente necessidade de aproximar os cuidados de saúde das pessoas.

A evolução da hospitalização domiciliária veio também demonstrar que, em determinadas situações clínicas e quando existem condições adequadas, é possível prestar cuidados diferenciados no domicílio.

Mas cuidar em casa é muito mais do que transportar para a residência alguns dos procedimentos realizados num hospital.



O que são os cuidados domiciliários?

Os cuidados domiciliários são cuidados de saúde ou de apoio prestados no domicílio da pessoa, adaptados às suas necessidades clínicas, funcionais e familiares.

Podem ser necessários por períodos muito diferentes: desde uma intervenção pontual até um acompanhamento regular durante semanas, meses ou mesmo por períodos mais prolongados.

Entre as situações que podem beneficiar de cuidados de saúde no domicílio encontram-se:

  • Pessoas idosas com limitações de mobilidade;
  • Pessoas dependentes ou parcialmente dependentes;
  • Recuperação após internamento ou cirurgia;
  • Doenças crónicas;
  • Tratamentos que podem ser realizados em casa;
  • Cuidados a pessoas com feridas;
  • Necessidade de vigilância de enfermagem;
  • Pessoas com dificuldades em deslocar-se aos serviços de saúde;
  • Necessidade de apoio ao cuidador familiar.

A intervenção deve ser sempre ajustada à situação concreta da pessoa e às indicações dos profissionais de saúde responsáveis.


Enfermagem ao domicílio: quando é necessário um enfermeiro em casa?

A enfermagem ao domicílio permite levar cuidados de enfermagem até à residência do utente, evitando deslocações que podem ser difíceis, desconfortáveis ou, em determinadas situações, desaconselhadas.

Um enfermeiro ao domicílio pode realizar diferentes intervenções, de acordo com a situação clínica e as necessidades identificadas.

Entre os serviços de enfermagem domiciliária podem encontrar-se:

Tratamento de feridas

Feridas cirúrgicas, úlceras de pressão e outras lesões podem exigir avaliação e tratamento regular.

A intervenção de enfermagem permite acompanhar a evolução da ferida, realizar os cuidados necessários e identificar alterações que justifiquem nova avaliação clínica.

Administração de terapêutica

Em situações em que esteja indicada a administração de determinados medicamentos por profissionais de enfermagem, os cuidados podem ser realizados no domicílio.

Vigilância e acompanhamento

Algumas pessoas necessitam de acompanhamento após uma doença, cirurgia, internamento ou alteração do seu estado de saúde.

A enfermagem domiciliária pode ajudar a acompanhar essa evolução e a identificar sinais que mereçam atenção.

Cuidados a pessoas dependentes

Quando existe dependência funcional, determinadas tarefas relacionadas com os cuidados de saúde podem tornar-se difíceis para a família.

O apoio profissional pode contribuir para tornar esses cuidados mais seguros e adequados.


Cuidados domiciliários após uma alta hospitalar

A alta hospitalar nem sempre significa que a pessoa recuperou totalmente a sua autonomia.

Muitas vezes, regressa a casa ainda debilitada, com limitações de mobilidade, necessidade de tratamentos, medicação ou acompanhamento.

É precisamente neste período que os cuidados de saúde ao domicílio podem assumir particular importância.

A continuidade dos cuidados em casa pode ajudar a família a compreender melhor aquilo que é necessário fazer, quais os cuidados a manter e que sinais devem motivar novo contacto com os serviços de saúde.

O objetivo não é substituir o hospital quando este é necessário.

É garantir que, quando a pessoa já pode permanecer em casa, existe uma resposta adequada às suas necessidades.


Cuidados a idosos em casa: uma necessidade cada vez maior

O envelhecimento da população está a aumentar a necessidade de cuidados a idosos em casa.

Muitos idosos pretendem continuar a viver na sua própria residência, mantendo as suas rotinas, vizinhança e relações familiares.

Contudo, envelhecer em casa pode implicar novas necessidades.

Podem surgir dificuldades na mobilidade, na higiene, na alimentação, na toma da medicação, na utilização da casa de banho ou na realização de tarefas quotidianas.

É importante distinguir, nestes casos, entre cuidados de saúde e apoio domiciliário.

Um enfermeiro presta cuidados de enfermagem.

Uma cuidadora ou profissional de apoio domiciliário pode assegurar outro tipo de acompanhamento e ajuda nas atividades da vida diária.

Em determinadas situações, as duas respostas podem complementar-se.


O cuidador informal também precisa de apoio

Quando uma pessoa fica dependente, é frequente que um familiar assuma grande parte dos cuidados.

De um momento para o outro, esse familiar pode ter de aprender a ajudar a pessoa a levantar-se, posicioná-la na cama, utilizar uma cadeira de rodas, gerir determinadas rotinas ou reconhecer sinais de alerta.

Nem sempre existe preparação para estas tarefas.

Por isso, os cuidados domiciliários de enfermagem podem ter também uma importante função de educação e capacitação.

Ensinar é uma parte essencial do cuidar.

Um cuidador que sabe como posicionar corretamente uma pessoa, utilizar um equipamento ou reconhecer uma alteração relevante está mais preparado para enfrentar o dia a dia.


A casa não é um hospital

Esta é uma diferença fundamental.

Quando um profissional presta cuidados de saúde ao domicílio, entra num espaço que pertence à pessoa e à sua família.

Não existem as mesmas condições de um hospital.

Pode haver escadas, casas de banho pequenas, camas inadequadas, falta de espaço ou equipamentos que dificultam determinadas tarefas.

Por isso, os cuidados domiciliários exigem capacidade de adaptação.

O profissional precisa de avaliar não apenas a condição clínica da pessoa, mas também o ambiente em que os cuidados vão acontecer.

Por vezes, uma pequena alteração no espaço ou a utilização de uma ajuda técnica adequada pode facilitar significativamente a prestação de cuidados.


Equipamentos de apoio também fazem parte dos cuidados em casa

A recuperação ou permanência no domicílio pode exigir equipamentos específicos.

Camas articuladas, cadeiras de rodas, cadeiras de banho, gruas de transferência, colchões de prevenção de úlceras de pressão e outros equipamentos podem ser importantes para aumentar a segurança e a autonomia.

A escolha deve, contudo, ser adequada às necessidades da pessoa.

Nem sempre o equipamento mais sofisticado é o mais indicado.

O importante é encontrar uma solução que responda ao problema concreto, considerando a condição da pessoa, o espaço disponível e a utilização prevista.


Tecnologia e cuidados domiciliários

A tecnologia está também a transformar os cuidados domiciliários em Portugal.

Telemonitorização, comunicação digital e novas ferramentas de acompanhamento permitem melhorar a articulação entre profissionais, utentes e famílias.

Mas a tecnologia não substitui a presença de um profissional quando é necessária uma avaliação presencial.

Há situações em que é indispensável observar a pessoa, avaliar uma ferida, perceber como se movimenta ou compreender as dificuldades sentidas pelo cuidador.

O futuro será provavelmente uma combinação entre tecnologia e proximidade.

Mais tecnologia quando ela acrescenta valor.

Mais presença humana quando ela é necessária.


Hospitalização domiciliária e cuidados domiciliários são a mesma coisa?

Não.

Embora estejam relacionados, hospitalização domiciliária e cuidados domiciliários não são sinónimos.

A hospitalização domiciliária é uma modalidade de prestação de cuidados diferenciados que, em determinadas circunstâncias, permite que uma pessoa que necessitaria de internamento hospitalar seja acompanhada no seu domicílio por uma equipa clínica organizada para esse efeito.

Já os cuidados domiciliários abrangem um universo muito mais amplo de intervenções.

Uma pessoa pode necessitar de enfermagem ao domicílio sem estar em hospitalização domiciliária.

Pode precisar de tratamento de uma ferida, administração de terapêutica, acompanhamento após uma cirurgia ou vigilância de uma situação clínica.

Esta distinção é importante porque cada resposta tem objetivos, critérios e níveis de acompanhamento diferentes.


O futuro dos cuidados domiciliários em Portugal

O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas e a necessidade de reduzir deslocações desnecessárias aos serviços de saúde vão continuar a colocar os cuidados domiciliários no centro da discussão sobre o futuro da saúde.

Mas o objetivo não deverá ser simplesmente levar mais cuidados para casa.

Será necessário perceber que cuidados devem ser prestados, por quem, com que frequência e em que condições.

Para algumas pessoas, a melhor resposta continuará a ser o hospital.

Para outras, poderá ser uma unidade de cuidados continuados.

E, em muitas situações, será possível realizar parte importante do acompanhamento no próprio domicílio.

A verdadeira mudança está em colocar a pessoa no centro da decisão.


Cuidados domiciliários com proximidade e acompanhamento profissional

No enfermeirosPT, entendemos os cuidados domiciliários como uma forma de aproximar os profissionais de saúde da realidade de cada pessoa e de cada família.

Um enfermeiro ao domicílio não leva apenas um procedimento até casa. Leva conhecimento, avaliação profissional e capacidade para adaptar os cuidados às circunstâncias concretas.

Cada situação é diferente.

Por isso, antes de iniciar um serviço de enfermagem ao domicílio, é importante perceber as necessidades da pessoa, o tipo de cuidados pretendido, a frequência necessária e as condições existentes no domicílio.

Porque cuidar em casa não significa transformar a casa num hospital.

Significa criar condições para que a pessoa possa, sempre que clinicamente adequado, receber cuidados de saúde com qualidade sem deixar de estar no lugar onde se sente em casa.

enfermeirosPT — Cuidados de saúde mais próximos, onde são necessários.



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