Um caso chocante que está a ser julgado em Portugal mostra como pessoas de confiança podem tirar partido da vulnerabilidade de idosos para obter vantagens financeiras — e serve de alerta para muitas famílias que dependem de cuidadores.
O que aconteceu
No verão de 2023, um casal de idosos, com 80 e 88 anos, contratou uma mulher de 60 anos para cuidar deles em Carregal do Sal. A cuidadora ficou responsável por tarefas do dia a dia, como ajudar na alimentação, higiene, consultas médicas e nas atividades domésticas.
Segundo a acusação do Ministério Público, a arguida percebeu-se da fragilidade física e cognitiva do casal e do valor do património que tinham. Aproveitando-se dessa confiança e vulnerabilidade, convenceu-os a acompanhá‑la a uma solicitadora e, depois, a um notário — sob o pretexto de tratar documentos sobre rendas — onde lhes fez assinar uma escritura de doação de um imóvel avaliado em mais de 100 mil euros, sem que eles compreendessem efetivamente o que estavam a assinar.
Posteriormente, a agora arguida permutou o imóvel por cerca de 55 mil euros e dois artigos urbanos, os quais foram depois vendidos por valores muito menores, apontando para um esquema de benefício pessoal à custa dos idosos.
Ela está acusada no Tribunal de Coimbra pelos crimes de burla qualificada e branqueamento de capitais.
fontes:
Porque fazemos este alerta para famílias?
Este caso não é isolado: existem vários esquemas de burla e exploração dirigidos a pessoas idosas e vulneráveis — desde falsas atualizações de documentos até pedidos para transferir casas, dinheiro ou assinar procurações e escrituras sem pleno esclarecimento.
Algumas formas de burla comuns incluem:
- Falsos representantes (técnicos, advogados ou oficiais) que exigem pagamentos ou assinaturas.
- Golpes imobiliários ou documentação enganosa para transferir propriedade.
- Esquemas em que os idosos acreditam estar “a ajudar” alguém ou a tratar de papelada importante.
Como proteger a sua família
Para evitar situações semelhantes, aqui estão medidas práticas que todas as famílias devem considerar:
✔️ 1. Verifique sempre a documentação
Antes de assinar qualquer contrato, procuração, escritura ou acordo — mesmo quando quem apresenta parece de confiança — peça leitura acompanhada por um advogado ou familiar de confiança. Instrua os seus familiares para nunca assinarem nada nem nunca irem a nenhum lugar fora do habitual sem os filhos ou pessoa responsável
✔️ 2. Nunca assinar “às cegas”
Idosos com dificuldades de audição, visão ou compreensão devem ter um acompanhante presente que possa confirmar o que está escrito e explicado no documento.
✔️ 3. Use ferramentas de proteção legal
Considere instrumentos como:
- Procurações com limites claros.
- Representantes legais formados e com reputação comprovada.
- Revisões independentes por advogados ou solicitadores.
✔️ 4. Monitorize ativos e documentos importantes
Famílias com bens imobiliários devem guardar registos e verificar registos prediais com regularidade — e informar‑se sobre alterações no registo de propriedade.
✔️ 5. Comunicação aberta
Manter um canal claro de comunicação com o idoso sobre decisões financeiras evita que situações preocupantes passem despercebidas.
A confiança é um valor central quando se contrata cuidadores ou se trata de relações de apoio, mas a vulnerabilidade pode ser explorada por pessoas mal‑intencionadas. Este caso serve de sinal de alerta para proteger idosos e famílias, promovendo melhores práticas de segurança e exigindo transparência em todas as operações que envolvam bens e património.