Um estudo recente revela que o acesso aos serviços de apoio domiciliário em Portugal continua fortemente condicionado pela capacidade financeira dos utentes. Enquanto pessoas com maiores recursos conseguem beneficiar de acompanhamento diário completo e personalizado, quem dispõe de rendimentos mais baixos recebe, em média, apenas cerca de uma hora de cuidados por dia.
A investigação, desenvolvida por especialistas do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, analisou mais de 500 serviços de apoio domiciliário (SAD) em todo o país. Os resultados evidenciam fragilidades estruturais no setor, particularmente nas instituições sem fins lucrativos, que representam a maioria da oferta.
Segundo o estudo, estas organizações enfrentam limitações significativas, como falta de profissionais, elevados custos operacionais e dificuldades no recrutamento. Como consequência, tendem a assegurar apenas respostas básicas — como higiene pessoal, alimentação e tratamento de roupa — sem capacidade para dar resposta a necessidades mais abrangentes dos utentes.
Por outro lado, o setor privado lucrativo, embora com custos mais elevados, consegue disponibilizar serviços mais completos, incluindo acompanhamento permanente e cuidados individualizados, ajustados às necessidades específicas de cada pessoa.
Os valores pagos refletem essa diferença: nos serviços não lucrativos, a maioria dos utentes paga entre 100 e 300 euros mensais, enquanto no setor lucrativo os custos podem ultrapassar os 1.000 euros.
As autoras do estudo alertam que esta disparidade representa um risco sério para a equidade social, sublinhando que os cuidados domiciliários não devem limitar-se às necessidades básicas. A qualidade de vida, o acompanhamento social e o apoio emocional são igualmente essenciais, sobretudo numa população envelhecida e, muitas vezes, isolada.
Outro problema identificado é a falta de articulação entre os serviços domiciliários e outras respostas, como unidades de saúde, cuidados continuados e reabilitação. Esta descoordenação compromete a continuidade dos cuidados, especialmente em situações mais complexas, como casos de demência ou dependência elevada.
Apesar da crescente aposta na permanência dos idosos em casa — tendência alinhada com as políticas europeias de desinstitucionalização —, o estudo conclui que essa estratégia só será eficaz se acompanhada por modelos mais robustos, integrados e ajustados às reais necessidades da população.
Entre as principais recomendações estão a revisão dos modelos de financiamento, a valorização e formação das equipas, o reforço do planeamento comunitário, a integração de cuidadores informais e o investimento em soluções tecnológicas, como a teleassistência.
